
No repertório de significantes vinculados à Gestalt-terapia, o termo "contato" talvez seja o mais conhecido.
Para muitos de nós, fazer Gestalt-terapia é fazer contato.
O que significa dizer: fazer Gestalt-terapia é viver esse momento ambíguo chamado "contato", o qual implica, por um lado, a manifestação do estranho entre mim e meu(s) semelhante(s): intimidade.
Por outro, a possibilidade de integração (ou recusa) deste estranho à realidade de cada qual: virtualidade.
Porém, em uma cultura, como a nossa, que acredita poder tratar o íntimo como se fosse algo senão demonstrável ao menos observável, em uma cultura para a qual a virtualidade é um objeto de consumo imediato e em tempo real, em que medida podemos reconhecer vivências de contato?
Qual a atualidade dessa noção em tempos de comunicação "ciberespacial"?
Em que medida ela ainda pode justificar esse projeto ético que denominamos Gestalt-terapia?
Em sua terceira edição, o Encontro Catarinense de Gestalt-terapia (GT Catarina) dedica-se a pensar estas questões a partir de três eixos temáticos, descritos a seguir, e em torno dos quais você poderá participar, seja como anuente seja como proponente de painel, comunicação, mesa de discussão ou oficina terapêutica.
Sejam todos bem-vindos!
Instituto Müller-Granzotto de Psicologia Clínica Gestáltica
Eixo temático 1
"Contato enquanto proposta ética da clínica gestáltica"
Por meio da noção de contato, Perls, Hefferline e Goodman (1951) se ocuparam de pensar um correlativo gestáltico para o modo como a psicanálise da década de 1940 compreendeu a noção de "transferência".
Para os psicanalistas deste período, em análise, a transferência seria a repetição de uma "outra cena" advinda do passado.
Contra o que PHG vão dizer que a "outra cena" é tão somente o fantasma - produzido no presente da experiência clínica - por cujo meio o consulente se ocupa daquilo que efetivamente se repete, a saber: o hábito, nome gestáltico para aquilo que Freud denominava de pulsão de morte.
E, segundo PHG, está no hábito "isso" a que podemos denominar, em vez de "outra cena", simplesmente de "outro". O "outro" - enquanto hábito, enquanto "forma (gestalt) sem conteúdo determinado" - é a medida da co-presença de um passado ao qual não podemos interpretar, apenas recriar a partir da repetição e em favor de um horizonte virtual ao qual denominamos de desejo.
Deixar-se afetar por este "outro", bem como participar dos processos de criação desencadeados pelo consultente a partir da co-presença daquele, define a noção gestáltica de contato. Razão pela qual o contato - entendido como acolhida ao outro - é o sentido ético da clínica gestáltica.
De que maneira essa compreensão de contato se faz presente hoje em nossas clínicas?
Que efeito ela produz em nossos consulentes?
Eixo temático 2
"Contato e intimidade: hábito, afeto e privacidade nos sistemas relacionais"
Para a GT, as sessões clínicas dirigidas a indivíduos, familiares ou casais, os processos psicoterapêuticos em grupo, assim como as diversas formas de clínica ampliada (acompanhamento terapêutico, clínica do sofrimento ético-político, dentre outras) são sistemas relacionais cujo primado ético implica a acolhida àquilo que, em tais sistemas, caracteriza-se como "outro".
E o "outro" em cada um desses sistemas pode ser muitas coisas, desde a manifestação inesperada de um hábito junto aos atos intersubjetivos compartilhados pelos sujeitos até o efeito individual desencadeado por aquele, a saber, o afeto.
Ora, quando falamos em intimidade referimo-nos exatamente à presença dos hábitos e de seus efeitos afetivos.
Intimidade, nesse sentido, é a presença do outro em nós.
É a presença desse terceiro que faz, de cada um de nós, um outro-eu-mesmo para si e para cada qual.
Nesse sentido, a intimidade não é o que podemos esconder ou revelar a partir do que julgamos pertencer a cada um de nós.
Não é o que podemos ou devemos contar sobre nós mesmos a alguém, como se pudéssemos ser transparentes para nós mesmos e para os semelhantes.
Intimidade é nossa participação no estranho, no não transparente, bem como o efeito que isso produz em nós.
Todavia, às vezes por causa de ideais religiosos e filosóficos, ou por exigências do mercado de consumo, operamos como se fôssemos transparentes e como se esta suposta transparência fosse interessante aos semelhantes.
Ou, ainda, procuramos, em nossos semelhantes, o que neles poderia ser considerado transparente; na vã esperança de desviar-nos de nossa própria obscuridade.
Mostrar tudo para não ver nada; ou ver tudo para não mostrar nada.
Ora, em que medida a noção de contato pode recuperar a intimidade de cada qual face ao semelhante?
Em que sentido a noção de contato pode nos fazer voltar ao outro e aos efeitos afetivos que ele provoca em nós?
Eixo temático 3
"Contato e virtualidade: dos objetos virtuais à virtualidade do desejo"
Um dos efeitos da experiência de contato é a abertura, qual horizonte de futuro, de uma dimensão virtual, jamais realizada de fato, chamada desejo.
Por meio do desejo, tentamos elaborar os excitamentos oriundos da repetição espontânea de hábitos, os quais, não obstante a "falta" de conteúdo, comparecem como "excesso" de forma, de sorte a introduzir, na atualidade da situação social concreta, uma espécie de "janela".
Desejar, neste sentido, é sustentar, por meio de criações de todo tipo, um horizonte de virtualidade, em que nossos excitamentos têm destinos inéditos, nunca integralmente compreendidos ou elaborados de maneira objetiva.
O que não impede que possamos desejar o domínio integral da virtualidade, a redução do desejo à realidade, como se as iconografias contemporâneas estabelecidas pelos recursos midiáticos e de tecnologia da informação pudessem, elas próprias, coincidir com os excitamentos.
Eis aqui o discurso banal, que consiste em reduzir o desejo à atualidade das representações sociais de que dispomos, como se nossas "janelas" pudessem ser integralmente configuradas pelos recursos oferecidos pela realidade, seja ela um software, as leis de mercado ou a perversão do semelhante.
Qual o lugar ético da clínica face à banalização do desejo?
